Depois dela e do adeus

Bom era ir embora pra bem longe
Porque o “não ter” faz aflorar
O que parece que não tem, mas está lá

Em busca do silêncio pros ouvidos
Pra mente, pro coração
Paz pra todos os sentidos
Se não se pede, não se ouve não
Pelas mãos feridas
Por conta do enterrado
Por puxar em vão
Pelo esforço desesperado

Pra onde foi? Pra onde foi?
Está ao lado, mas não tenho
Isso chama-se perder
No lugar de onde venho

Jóia que se sente carvão
Carne que se sente pão
Como água se sente o vinho
Vazio se sente o ninho
Amar é cura, é o caminho

A espera de navio naufragado
Esvai-se o espírito pelo “quando”
Clamando de saudade em lágrimas
Por amar se segue amando.

R.P.B.Q

Depois dela e do adeus20Jul2015

A árvore

Tree,-Snow,-Picture

Caíram-lhe as folhas
Restaram os galhos secos
Abatida pelo inverno cruel
Esperando que o frio passe pra recuperar seu verde
Tremem suas fibras com o ar gélido
Gelo no estômago, o coração batendo fraco
Não tivesse raízes fincadas no chão, desfaleceria
Que tem a oferecer esta árvore?
Foram-se as folhas, as flores, os frutos
Não dá sombra, foram-se os pássaros
Aqueles que se alimentavam dela foram buscar saciar-se em outras fontes
E os cientistas tentam explicar a estéril palidez daquele tronco usando matemática
Tentando fazê-la verde o mais rápido possível
Não se dão conta de que não se pode acelerar esse processo
Que só resta esperar a primavera
Enquanto esta não vem a árvore estará feia, triste e sombria
Esperando que aqueles que a amavam e admiravam sua beleza não tenham esquecido dela
Ela desejava que estivessem aqui ainda, porque se sente só
Mas o que há ali que os faça ficar?
Ouviu alguém dizer que havia não muito distante dali outra árvore forte, bonita e frondosa
Que não havia se abalado com a chegada do inverno
Olhar pra ela fazia doer, doer muito
Por realmente não estar em bom estado
Mas não porque quisesse, mas por causa do inverno!
Ninguém percebeu quão cruel foi o inverno
Ninguém imagina o quanto ela se sente feia e solitária, que há motivos pra isso
Porque ninguém se senta aos pés dela para lhe fazer sentir primaveril
Ela deseja as folhas, os frutos, os pássaros e as pessoas aos pés da outra árvore
Mas o que doí mais é o que dizem os que passam e a vêem pálida e trêmula
“O que você esperava!? Perdeu suas folhas!”
“São árvores diferentes, que besteira se sentir assim”
“Espere pela primavera”
Como ela não tivesse sentimentos, como fosse simples arrazoar e tornar o inverno mais suportável com lógica
Toda a lógica, ciência, razão não vão poder fazê-la sentir melhor
Porque ela precisa do calor, da alegria, da luz, da admiração e gratidão daqueles que se beneficiam dos seus encantos quando ela está resplandescente
Mas não tem. Só neve, silêncio e vento seco de sangrar o nariz
Não se vê a grama, nem pessoas e cachorros
Não se vê cor, e vai ser longo este inverno
Ela está esperando pela primavera
E enquanto esta não chega
Dói.

R.P.B.Q

A Árvore– 17Jun2015

Grata

Meu Deus! Como eu me lamentei me sentindo a maior vítima do mundo por ele nunca ter dito que me amava durante os anos que ficamos juntos.
Fazia tempo que não pensava mais nisso e um dia desses, sem razão aparente, algo subliminar me fez lembrar do assunto enquanto segurava volante, olhando o sinal fechado.
Tive uma epifania. Ele nunca disse que me amava porque não me amava. Simples assim. Ele nem mesmo demonstrava! E eu fiquei ali todo esse tempo porque quis ou porque não enxergava ou porque não quis enxergar.
  Em vez de me ressentir por nunca ter ouvido dele “eu te amo”, eu deveria ser grata por ele nunca ter mentido pra mim!
Soltei um meio sorriso, me senti feliz por 2,5 segundos com a minha descoberta, dei de ombro porque não fazia mais a menor diferença e o sinal abriu.

S.A.

abismo

Meu nome é Augusto César da Silva. Minha mãe achou que me dar nome de imperador ia garantir que eu fosse poderoso e fizesse grandes conquistas na minha vida. Um grande contraste com o Silva, sinônimo de comum, simples, de povão. O Silva venceu. Sou comum, simples, povão.

Perdi meus pais cedo, fui criado por uma avô que bebia e me batia. Sofri bullying na escola e já fui preso uma vez por roubar uma loja. Mas foi só essa vez.

Eu vendo sapatos. Arranjei este emprego pra me casar, logo depois que terminei o ensino médio. Casei com Maria Helena, minha primeira namorada, que conheci no colégio. Irônico não? Nome de deusa grega precedido do nome mais comum do mundo. No caso dela o Maria prevaleceu. Ela é uma mulher comum. Mas eu a amo.

Mas nossa vida não tem sido nada fácil. Estamos juntos há 20 anos e não tivemos um só minuto de paz. Assim que nos casamos Maria Helena sofreu um terrível acidente de carro. Nossa lua-de-mel foi no hospital. Ela não curtiu muito porque estava inconsciente a maior parte do tempo. Felizmente ela se recuperou, mas o acidente deixou sequelas que não permitiam que ela continuasse trabalhando. Tivemos que sobreviver apenas com a minha renda, o que tornou a nossa vida muito difícil.

Não planejamos, mas Maria Helena ficou grávida, o que foi motivo de grande alegria apesar das circunstâncias difíceis. Mas no quinto mês descobrimos que não havia batimentos cardíacos no ventre de Helena. Isso foi devastador, sobretudo pra ela, mãe, que tinha uma conexão maior com o bebê. Maria Helena ficou muito deprimida. Não procuramos ajuda. Resolvemos tentar de novo na esperança que um novo bebê abafasse aquela dor. Tivemos Murilo e logo depois, por acidente, Beatriz. A alegria de ter dois filhos lindos não  abafou a dor da perda do nosso primeiro e não curou a depressão de Helena. Piorou. Ela chorava se sentindo uma péssima mãe por não conseguir cuidar das crianças como devia por não estar emocionalmente disponível. Se sentia péssima esposa por me sobrecarregar com tarefas que supostamente ela deveria estar fazendo e por  não estar bem quando eu precisava da minha mulher.  Não podíamos pagar alguém pra cuidar da casa e olhar as crianças. Então minha vida era uma grande maratona de levar e buscar as crianças na escola, deixá-las com as avós, ou tias, ou vizinhos, quem quer que topasse. Então vender sapatos e, à noite, miojo ou comida congelada, louça acumulada, roupa suja empilhada. Por fim, crianças pra cama e eu pro discurso de cada dia tentando convencer Helena de que viver valia a pena e que ela ia sair disso.

Fui ficando esgotado. Não tinha paciência com as crianças.  Não passava tempo com eles. Procurava mantê-los vivos e só. Helena foi ficando cada vez mais triste, melancólica, reclusa, introspectiva. Depois de alguns anos e uma tentativa  de suicídio, procuramos ajuda. Remédios, terapia. Altos e baixos. Quando ela melhorou um pouco descobrimos que Bia tinha leucemia. Médicos, hospitais, tratamento convencionais, tratamentos alternativos. Contas, gastos, empréstimos. Uma loucura. E perdemos a Bia de qualquer forma. Foi bem nessa época que o Murilo começou a usar drogas. Tínhamos muitas dívidas, sobretudo com despesas médicas, e não ajudava ter um um filho quebrando coisas dentro de casa e roubando.

Nesse ponto eu comecei a questionar a vida. Eu não me importava de ser Silva, de ser um cara comum, casado com uma mulher comum, com um emprego comum. Nem mesmo me importava de enfrentar dificuldades financeiras e algumas dificuldades que todo mundo enfrenta. Mas o que era aquilo? Tudo menos vida.

Perdi a vontade de viver. Morrer era uma boa! Se livrar de toda aquela dor, daquela angústia, daquela exaustão e sensação de impotência, daquele frio na barriga o tempo todo esperando más notícias. Se eu morresse poderia finalmente dormir. Nem me lembrava como era isso. Deitava com um olho aberto outro fechado. Sono levísssimo, um algodão caíndo no chão me fazia despertar. Eu queria desligar minha cabeça, achava que estava ficando louco. A mente girava a mil por hora, pensamentos que não esperavam sua vez, me soterravam todos ao mesmo tempo num avalanche. Não aguentava mais cuidar e resolver. Queria que alguém cuidasse de mim. Queria não! Precisava!

Mas antes de planejar tirar a minha vida, lembrei de quando Helena fez isso. Lembrei da horrível sensação que senti ao pensar que ia perdê-la e dos discursos que fiz dizendo a ela que não importava quão difícil fossem as circunstâncias, não podíamos desistir, valia a pena lutar.

Então? O que eu diria a mim mesmo?

“Augusto, sua vida foi uma sequência de catástrofes , mas você sobreviveu a todas elas e viveu muitas alegrias que você devia valorizar acima das tristezas. Sua vida foi uma luta que imperador nenhum ia encarar. Sua família precisa de você e você não vai querer abrir mão do que ainda pode viver se não desistir só porque está cansado. Ter vontade de morrer infelizmente é normal nesse mundo. Tanta gente se sente assim em secreto que se devia fundar a SA – Suicidas Anônimos. Mas cometer suicídio é algo muito diferente de sentir vontade de morrer. Suicídio é preguiça de viver. É pegar um atalho para o fim do sofrimento para não ter que lutar. Como diz J.Forbes, ‘viver dá trabalho’. É complicado, mas temos que lidar com o que quer que a vida nos apresente. Viver é bom e requer esforço fazer ser bom mesmo com tudo de ruim que nos acontece. O mundo entupido de aflições e de depressivos entregues às suas fraquezas, prega que o suicídio é uma solução aceitável para os que estão sofrendo, perdidos, desesperados. Mas não é. É uma escolha idiota. Sempre é possível dar a volta por cima e viver a felicidade, ainda que limitada.”

Eu busquei ajuda. Primeiramente a ajuda do meu Deus. Percebi que estava tão concentrado nos problemas que não fazia nada por Deus e nem mais recorria a ele. Sabia que ele estava sempre comigo, mas eu queria estar com ele também.  Depois procurei ajuda profissional e descobri que eu mesmo estava deprimido e que precisava de assistência pra lidar com aquilo e com as minhas dificuldades. Levei o tratamento a sério e isso também me ajudou a compreender melhor minha esposa, nos uniu e juntos nós conseguimos trazer alguma estrutura e alguma paz para o nosso lar.

Ainda me lembro de Murilo chorando de joelhos quando eu e Helena pedimos perdão a ele por termos lhe feito tanto mal sem querer e que sabíamos o quanto ele precisou e ainda precisava de nós e que sabíamos a falta que fizemos. Dissemos que agora estávamos ali por ele e que precisávamos dele tanto quanto ele precisava de nós. As emoções foram tão fortes que eu achei que ia vomitar. Helena chorava rios e tremia. Ele nos abraçou e pediu que o desculpássemos. Ele me olhou nos olhos e disse soluçando: — Me ajuda pai?

Eu estava ali. Eu estava ali pra dizer sim, pra ajudar meu filho, pra catar os cacos da minha família e colar de volta o que desse. Eu me senti feliz por isso. Por não acreditar na vontade de morrer. Por sentar no meio-fio e esperar passar, levantar e fazer algo que me desse vontade de viver.

Nossa vida não foi um idílio depois disso, não vou mentir. A luta continuou. Mas vi meu filho se formar, trabalhar, se casar e virar um cara comum e feliz. Eu e minha esposa, além dos laços do casamento, somos grandes amigos. Não consigo viver sem ela, nem ela sem mim. E  estamos constantemente lembrando as alegrias que tivemos em meio ao furacão que nos atingiu.

Que venham os problemas, nós sabemos como sobreviver. Caímos e levantamos. Cansamos, mas não desistimos. Porque viver vale a pena.

R.P.B.Q

SA– 12Set2014

sonhar-com-um-abismo

Viver vale a pena

Todos têm que ler!

A culpa é das estrelas

Capturar

Li as primeiras trinta páginas e larguei pra lá. Um dia resolvi terminar de ler e li todo naquele dia.

Não derramei uma única lágrima. Ainda estou tentando entender porquê, já que o livro, bem como o filme, são famosos por fazer as pessoas se debulharem.

Acho que foi este o problema. Salvo raras exceções, se alguém me diz que algo é engraçadíssimo, não acho graça, se me dizem que vou chorar horrores, não derramo uma lágrima. Não sei lidar muito bem com expectativas.

Algo que certamente pesou foi o fato de eu ter lido “Quem é você Alasca” e ter achado mais ou menos. Eu comecei a ler “A culpa é das estrelas” com um olhar crítico, meio que desafiando John Green a ser melhor desta vez do que tinha sido no outro livro. Também não pude evitar de compará-lo ao Nicholas Sparks, pois a receita de ambos salta aos olhos: dramáticas paixões juvenis envolvendo doenças terminais, mortes etc.

Outra hipótese é o fato de que as pessoas consideram a história triste e comovente porque envolve pessoas lidando com câncer. Eu acho que não vejo o câncer como as pessoas veem… Eu perdi minha avó e meu avô paternos para o câncer. Sei como é triste, sofrido, feio, como castiga e tira a dignidade das pessoas, como dói a certeza da morte. Talvez essa experiência tenha quebrado o encanto da história.

No final das contas talvez a culpa seja do meu emocional “canceroso”.

Mas apesar de tudo isso eu gostei do livro. Achei a história original, embora seja meio clichê em alguns momentos.

Pra início de conversa adoro narrações em primeira pessoa. A história contada de dentro, do ponto de vista de quem vê, pensa e sente. Ele descreve situações cotidianas de forma super analítica, que te fazem visualizar a cena, muitas vezes com humor. Tipo: “Kaitlyn serpenteando pelos corredores da loja, escolhendo sapatos com a intensidade e a concentração normalmente associadas ao xadrez profissional.” Amo quando o autor descreve com simplicidade um pensamento bobo do personagem, irrelevante à trama, mas cheio de verdade e que muitas vezes já passou pela nossa cabeça, como: “O mais estranho nas casas é que quase sempre elas dão a impressão de que não tem nada acontecendo do lado de dentro, embora a maior parte das nossas vidas seja passada lá.”

Gostei do modo como ele nos coloca no lugar dos doentes mostrando seus medos, sua confusão emocional, o seu constrangimento, a sua necessidade de ser o mais “normal” possível. Eu me identifiquei.

“Um dos pré-requisitos do doente profissional é dormir muito.”

“Fiquei pensando no verbo lidar, e em todas as coisas não lidáveis com que se tem que lidar.”

“Estou em Guerra contra o quê? O meu câncer. E o que é o meu câncer? Meu câncer sou eu. Os tumores são feitos de mim. Eles são feitos de mim tanto quanto meu cérebro e meu coração são feitos de mim. É uma guerra civil…”

 Gostei da honestidade com a qual ele diz: “A doença gera repulsa. As pessoas se sentem constrangidas e desconfortáveis diante de alguém que não está dentro do que se considera padrão de normalidade.” Ele fala francamente de como é ter uma doença que não tem cura, as dificuldades sociais geradas pelas limitações da saúde debilitada e pela dificuldade das pessoas de lidar com algo que elas não entendem plenamente por nunca terem passado por aquilo. Não adianta, nossa mente não aceita nem doença nem velhice. Mas é feio dizer que é feio.

Gostei sobretudo do humor negro, de como os personagens fazem piadas sobre a doença, o tratamento e sobre os prejuízos que o câncer lhes causa. Eu sou totalmente a favor de rir dos problemas. Se você está numa situação ruim, qualquer que seja, ria, faça piada. Rir torna tudo mais suportável. Experiência própria.

Gostei muito das citações e de alguns questionamentos literários, como quando ele questiona Shakespeare dizendo uma grande verdade: escreve-se um poema dedicado a alguém, pensa-se que este alguém será imortalizado naquelas palavras, mas quem é lembrado é sempre o autor e não o homenageado.

“A escrita enterra, mas não ressuscita.”

 Fantástico.

Acho que já mencionei antes que me incomoda o modo como as pessoas tentam fazer você se sentir melhor com seus problemas por pensar que tem gente passando fome na Somália. Pensar que alguém está sofrendo por um problema que você não tem não ameniza o seu sofrimento por um problema que você tem. Daí o Green mandou uma que eu achei massa e que é mais ou menos nessa linha:

“Sem dor, como poderíamos reconhecer o prazer?” Essa é uma discussão antiga no campo das Reflexões Sobre o Sofrimento, e a ignorância e a ausência de sofisticação desta frase poderiam ser analisadas por vários séculos, mas é suficiente dizer que a existência do brócolis não afeta de forma alguma o gosto do chocolate.

 Enfim, eu recomendo.

Pra concluir um pensamento do livro que eu tomei pra mim:

‘Alguns pensamentos são instantes desperdiçados numa vida que é composta de um conjunto, por definição, finito de tais instantes.’

Meu vô e minha vó que foram levados pelo câncer.

Meu vô e minha vó que eu perdi pro câncer.

Stuck

Stuck in the past

“And they say
She’s in the Class A Team
Stuck in her daydream
Been this way since eighteen
But lately her face seems
Slowly sinking, wasting
Crumbling like pastries
And they scream
The worst things in life come free to us”

(The A Team – Ed Sheeran)

 

Future, past, present

Debaixo do tapete
Varridas perguntas que ninguém vai responder
Angústia dos fechamentos pendentes
Cadáveres que não tiveram um enterro digno
Obsessão de mudar o que não pode ser mudado
Se esticando pra alcançar o presente
Enquanto o passado puxa pelos pés
Futuro?
Opressiva página em branco
Presente?
O não viver a vida por uma ex-vida mal vivida
Tardio renascer no mundo real.

R.P.B.Q

Dores de parto – 20Ago2014

Para o futuro